A grave doença de estar sempre a pensar

Quando a palavra “espírito” sai da boca do Papalagui, os seus olhos tornam-se grandes, redondos e fixos; soergue-se-lhe o peito, respira fundo e toma a pose de um guerreiro que venceu o inimigo. Tudo isto porque tem um orgulho muito especial nesse tal “espírito”. Não se trata do ‘grande espírito’ omnipotente a que os missionários chamam “deus” e de que nós todos somos uma mísera reprodução, mas sim do espírito mais pequeno que faz o homem pensar. Quando olho, daqui, para a mangueira [árvore] que há por detrás da igreja, não estou a usar do espírito; estou, única e simplesmente, a vê-la. Mas se me dou conta de que ela é mais alta do que a igreja, aí já entra o espírito. Não basta pois olhar para uma coisa, há também que tirar algum saber. É esse saber que o Papalagui exerce do nascer ao pôr-do-sol. O seu espírito está sempre carregado (…). E sente pena de nós, povos das muitas ilhas, por não exercermos esse saber. Somos, a seu ver, pobres de espírito e tão estúpidos como um animal em estado selvagem. É verdade que nós exercemos pouco o saber a que o Papalagui chama “pensar”, mas a questão que se põe é a de saber qual dos dois é mais estúpido, se aquele que não pensa muito ou se aquele que pensa em demasia. O Papalagui não pára de pensar: “a minha cabana é mais pequena do que a palmeira; a palmeira verga-se por causa da tempestade” (…). É assim que ele pensa no que o preocupa. Mas também ele próprio é objecto dos seus pensamentos: “eu sou pequeno; o meu coração alegra-se sempre à vista de uma rapariga” (…). Mas o Papalagui pensa tanto, que o acto de pensar se tornou um hábito, uma necessidade, e até mesmo uma coacção. Vê-se obrigado a pensar continuamente. Só muito a custo consegue não fazê-lo e deixar viver todas as partes do seu corpo ao mesmo tempo. Na maior parte do tempo vive apenas com a cabeça, enquanto os sentidos dormem um profundo sono. Muito embora isso o não impeça de andar normalmente, de falar, de comer e de rir, permanece fechado na prisão dos seus pensamentos (…). Ora isso é falso, absolutamente falso, é uma aberração, pois quando o sol brilha, vale mais não pensar em nada. Qualquer samoano sensato irá estender e aquecer o seu corpo ao sol, sem mais reflexões. E goza do sol não só com a cabeça, mas também com as mãos, com os pés, com as coxas, com o ventre, em resumo, com o corpo todo. Deixa a sua pele e os seus membros pensarem por si próprios, e eles pensam à sua maneira, por certo diferente da da cabeça. Os pensamentos barram amiúde o caminho do Papalagui (…). Se pensa em coisas alegres, não sorri; se pensa em coisas tristes, não chora (…). O Papalagui é, regra geral, um ser vivo dominado por uma perpétua luta entre os seus sentidos e o seu espírito, um ser humano dividido em dois (…). O Papalagui gosta do seu espírito, venera-o e alimenta-o com os pensamentos da sua cabeça. Nunca o faz passar fome e não sofre por aí além pelo facto dos seus pensamentos se devorarem uns aos outros. Faz imenso barulho com os pensamentos que tem; consente-lhes que sejam mais barulhentos do que as crianças mal educadas. Comporta-se como se eles fossem tão preciosos como as flores, as montanhas e as florestas. Fala dos seus pensamentos como se não tivesse qualquer valor um homem ser valente e uma rapariga alegre (…). As palmeiras e as montanhas nunca fazem assim tanto barulho a pensar; se as palmeiras reflectissem tão ruidosa e ferozmente como os Papalaguis, decerto não teriam tão verdes e bonitas folhas nem tão belos e doirados frutos (pois é um facto sabido que pensar faz ficar velho e feio) (…). Que triste sorte a do homem que pensa em coisas tão longínquas como por exemplo: “que irá acontecer amanhã, ao alvorecer do dia?” (…). É tão vã, esta maneira de pensar, como é vão tentar ver o sol de olhos fechados: não se consegue (…). Na Europa, dizem que este modo de proceder torna o espírito mais aberto e sedutor. Quando alguém pensa muito e com rapidez, diz-se que é uma grande cabeça (…). As aldeias elegem-nas para seus chefes. Se houver, numa aldeia, uma grande cabeça, logo ela se sentirá no dever de comunicar os seus pensamentos a todos os presentes, que os admirarão e com eles se deleitarão. Quando uma grande cabeça morre, todo o país fica de luto e lamenta a sua perda. Talham então na rocha uma imagem da grande cabeça e expõem-na à vista de todos, no largo do mercado. Para que a gente do povo possa admirar bem essas cabeças de pedra e isso as leve a reflectir humildemente na pequenez da sua, talham-nas em tamanho muito maior do que o que na realidade tinham. Quando se pergunta a um Papalagui: “porque é que pensas assim tanto?”, ele responde: “para não ficar estúpido!” (…), quando, na verdade, se devia ter como sinal de inteligência encontrar alguém o seu caminho sem ter necessidade de pensar (…). Ele próprio [o Papalagui] atribui a esse desejo um qualificativo (…): “investigar”. Investigar, quer dizer: ter uma coisa tão perto da vista que se pode tocar-lhe e meter lá o nariz. Essa mania de querer penetrar e esquadrinhar tudo é uma paixão desprezível e de mau gosto (…). O grande espírito não consente que lhe roubem os seus segredos. Nunca ninguém conseguiu trepar mais alto do que o cocoruto da palmeira a que se agarrou; chegando ao cimo teve que parar, por não haver mais tronco a que se agarrar para continuar a subir. Além do mais, o grande espírito não gosta da curiosidade dos homens: é por isso que estendeu, sobre todas as coisas, grandes lianas sem princípio nem fim. Eis a razão pela qual todo o indivíduo que siga até ao fim o fio dos seus pensamentos, se vê forçado a reconhecer que nem por isso ficou a saber algo mais (…). Assim, de resto, o confessam os Papalaguis mais inteligentes e valorosos. Mas a maior parte dos doentes do pensamento persiste na sua voluptuosa paixão (…). É pois particularmente grave e nefasto que todos os pensamentos (…) sejam de imediato projectados sobre finas esteiras brancas (…), de modo que tudo o que esses doentes pensam, fica, ainda por cima, inscrito (…). Agarram depois os Papalaguis numa grande porção de esteiras com pensamentos, comprimem-nas em pequenos maços — a que chamam “livros” — e enviam-nos para todos os recantos do país. Quem absorver esses pensamentos ficará imediatamente contaminado, e eles ingerem essas esteiras como se fossem bananas doces (…). Velhos e jovens Papalaguis roem naquilo como ratos em cana de açúcar (…).

in “O Papalagui. Discursos de Tuiavii, chefe da tribo de Tiavéa nos mares do sul”, Antígona, 2002

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