COPY, RIGHT?
Right!


—conversa com Rogério Nuno Costa (performer e criador português)



















@Samuel & Ana Barrinha [“MASHUP“, 05.12.2009]


RICARDO CARMONA
Olá. Como te disse, estou a fazer um trabalho para um curso que estou a tirar, e decidi fazer o trabalho sobre o copyright, falar sobre uma série de conceitos que lhe estão ligados, um pouco como reacção ao copyright, como o freeware, o opensorce e o copyleft. E como sei que tens abordado esses temas, achei boa ideia falar contigo, especialmente depois do teu último espectáculo: MASHUP.

ROGÉRIO NUNO COSTA
Isso é interessante. Através do conceito de mashup, fui chegando a uma série de coisas, que investiguei na fase de processo. Mas não fiz uma investigação muito profunda; fui até onde as exigências do espectáculo me pediram. Na verdade, interessa-me mais o lado performativo e as questões filosóficas que levanta, mais do que o aspecto político…

RICARDO
Estás inscrito na SPA?

ROGÉRIO
Eu não, nem quero!

RICARDO
Porquê?

ROGÉRIO
Não sinto que nada do que tenha feito até agora mereça ser “protegido” por uma associação de interesses (diria melhor, de interesseiros) que vivem à custa de leis idiotas e que fazem dinheiro às custas da tua suposta “criatividade”. Na verdade, não tenho qualquer receio que o meu trabalho possa ser copiado, plagiado, vandalizado, whatever… É para isso que ele existe e é por isso que ele existe, porque ele próprio copia, plagia e vandaliza. Acredito na circulação hiper-referencial de ideias e de conceitos. A crise da originalidade fascina-me, não a pretendo corrigir, superar, ou coisa que o valha, talvez percebê-la melhor…

[Nota de rodapé: Rogério Nuno Costa, no início da página do projecto “Espectáculo de Teatro”, tem a seguinte informação: “No rights reserved. Unless otherwise indicated, all materials on these pages are not copyrighted. Any part of these pages, either text, audio, video or images may be used for any purpose other than personal use, without explicit authorization by Rogério Nuno Costa. Therefore, reproduction, modification, storage in a retrieval system or retransmission, in any form or by any means, electronic, mechanical, or otherwise, for reasons other than personal use, is strictly allowed without prior written permission.]

RICARDO
Mas reivindicas uma autoria do trabalho? Estou a falar de um modo mais geral, não tanto neste espectáculo.

ROGÉRIO
Sim e não. Reivindico uma autoria num sentido quase de missão científica ou jornalística. Por exemplo, um cientista que descobre a vacina para uma doença antes incurável tem o dever “científico” de a comunicar ao mundo, torna-se autor de uma descoberta, mais do que uma criação, tal como o jornalista que publica uma história que as pessoas merecem saber. Não é autor da história, é simplesmente um intermediário entre duas coisas…

RICARDO
Ok, então, tens a autoria, mas depois “libertas” para todos usarem…

ROGÉRIO
É mais ou menos assim que eu me posiciono perante a arte que faço de uma maneira geral; já o ano passado [“Espectáculo de Teatro”] tinha trabalhado em cima deste conceito, e na sua possível radicalização, embora a questão do copyright não tenha sido “tema” do espectáculo, era mais um anexo. No MASHUP, era de facto conceito estruturante de todo o projecto.

RICARDO
Na folha de sala dizes que não pediste autorização…

[Nota de rodapé (in folha de sala do espectáculo MASHUP): “A estrutura genérica do espectáculo foi directamente inspirada no imaginário criativo de artistas e companhias internacionais: Forced Entertainment, Pina Bausch, Romeo Castelucci, Alain Platel, Raimund Hoghe, Mathilde Monnier, Rosas/Anne Therese de Keersmaeker, Wim Vandekeibus, DV8, La Ribot, Jérôme Bell, Oklahoma Natural Theater, Eimuntas Nekrosius e Meg Stuart, e nacionais: Teatro Praga, Rui Horta, Paulo Ribeiro, Vera Mantero, Companhia de Teatro Sensurround, OLHO, Karnart e Casa Conveniente. Limitamo-nos a roubar descaradamente a forma, para depois a preenchermos com os conteúdos que nos interessavam. Não pedimos autorização.]

ROGÉRIO
Não pedi, de facto. Repara, tudo isto me parece uma falsa questão. Não estou a fazer nada que os outros antes de mim não tenham feito; aquilo que se afirma no MASHUP é uma absoluta redundância. Todos nos influenciamos e nos inspiramos noutros artistas de forma mais ou menos directa. A diferença, a existir, reside na intencionalidade e motivação em afirmar donde vêm essas referências e como são utilizadas nos espectáculos que fazemos. É um pouco aquilo que o David Bernardes diz no talk-show: “Se me disseres que outros antes de mim também já fizeram, eu até aceito. Mas eles fizeram, mas não disseram, logo, não fizeram”. Sou defensor acérrimo da ideia de que a arte, hoje, sobrevive na sua simples e quase superficial enunciação, ou seja, esta questão de tornar algo visível (a tal dicotomia criação vs. revelação) …remete-me para a ideia de que não podemos reconhecer o tratamento de certos conceitos retroactivamente, porque se assim fosse, poderíamos reconhecer “performance” na Idade Média.

RICARDO
Durante a peça, dás a entender, pela cena inicial, que os intérpretes são meros executantes… Uma das questões que me tenho deparado é que ao assumirmos os intérpretes dentro da óptica actual, todos os intérpretes são co-autores, e co-criadores e co-artistas (como uma das intérpretes diz no espectáculo); daqui a questionar a autoria de um espectáculo é um passo.

ROGÉRIO
Claro.

RICARDO
Mas tu invertes isso, no início e nas cenas plagiadas, mas depois no fim recuperas a ideia.

ROGÉRIO
O MASHUP vive em cima dessa dicotomia, que é também uma contradição absoluta; começa por ser uma crítica à instrumentalização do papel do actor/intérprete, daí a vontade de ter dissecado a própria palavra: intérprete como executante, mas também como tradutor. Eu tentei dar aos diferentes elementos do espectáculo (actores incluídos) a mesma dimensão dos diferentes elementos que compõem uma composição musical mashup. Repara que os DJs que fazem mashup, para se protegerem dos processos que lhes caem constantemente em cima por parte das editoras discográficas, afirmam que só fazem o que fazem para divulgar os artistas que misturam; é uma forma sublime de utilizarem o sistema para minarem o próprio sistema. Sistema esse que os acolhe quando os mashups se tornam êxitos de Youtube e ganham poder comercial. Muitas vezes são os próprios músicos que encostam as editoras contra a parede, exigindo que os processos sejam retirados.

RICARDO
Sim, é verdade, pois embora toda a gente reconheça a música, no fundo estás a criar uma nova coisa. A soma é mais do que a junção das partes. 1 + 1 = 3.

ROGÉRIO
Sim, mas isso da “nova coisa” é o elemento mais interessante e complexo; eu já andava obcecado com a possibilidade de uma Terceira Via™ desde o “Espectáculo de Teatro”, e encontrei no mashup a materialização perfeita, e contemporânea, para esse “paradigma”.

RICARDO
Achas que o MASHUP é um espectáculo revisionista?

ROGÉRIO
Revisionista no sentido de querer fazer uma espécie de antologia do que se passou nos últimos anos? Isso não, definitivamente… Aliás, o espectáculo afirma continuamente que não acredita em antologias, prefere procurar uma espécie de essencialidade ontológica. Antologia vs. Ontologia. E comprovar a tese de que NUNCA fomos originais.

RICARDO
Não é bem isso, é mais no sentido da re-criação, re-interpretação e afins… O que fez a Marina Abramovic no MOMA, com os trabalhos do Josef Beuys.

ROGÉRIO
Também não no sentido de re-criação, parece-me; quer dizer, nós tivemos que “re-criar” alguns pedaços de espectáculos antigos, mas isso é mais a questão técnica do espectáculo, que não me parece muito importante.

RICARDO
Sim, tens razão, esse é um outro caminho…

ROGÉRIO
A Abramovic fez um trabalho absolutamente “antológico”…

RICARDO
Sim, mas ao mesmo tempo é um novo trabalho…

ROGÉRIO
Não me parece que tenha sido esse o meu caminho… O “1 + 1 = 3” é mesmo outra coisa!

RICARDO
Será que ela tem copyright do que fez?

ROGÉRIO
Tenho a certeza que sim!

RICARDO
Copyright do copyright!

ROGÉRIO
Não há qualquer “ilegalidade” no trabalho dela, e no nosso também não, embora à superfície pareça que sim.

RICARDO
Mas voltando à questão dos intérpretes…

ROGÉRIO
É evidente que aqueles intérpretes (que estão, justamente, a fazer de “intérpretes”, é essa a sua “personagem”…) são co-criadores, no sentido em que contribuíram criativamente para todas as dimensões dramatúrgicas e outras do espectáculo, nomeadamente para a questão da instrumentalização. Eles próprios se posicionaram perante as minhas ideias na condição de meros executantes, de fantoches nas mãos de um jogador de xadrez…

RICARDO
Então é por isso que apareces no fim com a placa de “Encenador Verdadeiro”?

ROGÉRIO
Também! Ainda que a piada venha do facto de termos usado na cena do “Mashup Performativo [espectáculos estreados em Portugal entre 1999 e 2009]” os cartazes que o Teatro Praga usava no espectáculo “Título”, no qual se invertiam todos os dados, assumindo-os como falsos. Quando apareço enquanto porta-voz (encenador) daquele trabalho, é para cumprir com o 1 + 1 = 3, então tenho que assumir-me como “verdadeiro”. Na lógica do Teatro Praga, dizeres que és verdadeiro num contexto de ficção, estás a assumir que na verdade é falso. É mentira que eu seja um encenador verdadeiro porque estou em cima de um palco a dizer que sou um encenador verdadeiro, logo, sou um falso encenador. Que sou!



















 @Samuel & Ana Barrinha [“MASHUP“, 05.12.2009]


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