BALDIO

DO ARQUIVO COMO GESTO #5: inventários e documentos

Continuando a investigação em torno da temática do arquivo iniciada na primeira edição (2018) da Escola de Verão UNFINISHED, com as investigadoras Ana Mira e Joana Braga, propõe-se desta feita uma oficina prática com coordenação de Ana Bigotte Vieira, partindo de inventários e documentos e discutindo a sua função na economia da(s) memória(s). Para tal, disponibilizar-se-ão pelos participantes algumas instruções e inquéritos com vista a reunir um corpus de documentos sobre os quais trabalhar.

Muitas vezes considerados repositórios mais ou menos seguros da memória, os arquivos estão intimamente ligados às narrativas e às lógicas que suportam a sua existência – narrativas e lógicas essas que frequentemente ajudam a legitimar. Neste sentido, pode olhar-se para os arquivos tanto em sentido lato (vendo, por ex., o corpo como arquivo, como o fazem algumas práticas artísticas performativas contemporâneas) como em sentido comum (pense-se nos arquivos gerais das instituições) ou no arquivo em geral (pensando-o de acordo com uma tradição filosófica e epistemológica) como uma série de práticas ou de gestos. O que é ou deve ser arquivado? Porquê? Para quê? Por quem? Para quem? Quais são as implicações políticas de criar ou trabalhar com um arquivo? Com que questões e escolhas se confronta um artista ou um investigador ao trabalhar com um arquivo, ou ao construir um? Tendo como ponto de partida a noção de arquivo como gesto, procura-se discutir alguns textos-chave nos debates recentes sobre as relações entre arquivo e memória, para com isso problematizar alguma produção artística que ao longo dos últimos anos se tem debruçado sobre estas questões – redefinindo com isso a própria forma de as colocar. Serão discutidos textos de Foucault, Derrida, Deleuze, Baudrillard e Hal Foster, colocando-os em relação com estudos sobre a transmissão performativa da memória realizados por autores como Enzo Traverso, Diana Taylor, Paul Connerton e Joseph Roach.

Do Arquivo Como Gesto #5 faz parte de uma série de oficinas, frequentemente colaborativas, em torno da questão da memória e dos usos performativos do arquivo que têm vindo a ter lugar entre 2012 e 2018. As edições anteriores tiveram lugar na escola ZHdk, em Zurique, com Sandra Lang e Pedro Lagoa (2013), no âmbito do Curso Experimental em Estudos de Performance do baldio, em Lisboa, com Paula Caspão e Ana Riscado, e, mais recentemente, no âmbito do FITEI 2017 (em versão mais curta) e da Escola de verão UNFINISHED 2018.

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Baldio – performance studies é um espaço discursivo onde se ensaia uma abordagem interdisciplinar (cruzando as artes, as ciências sociais e as humanidades), teórico-prática (encarando a arte como forma de criar mundo) e politicamente comprometida (não partindo do princípio da neutralidade da ciência e da arte), a que se dá o nome de Estudos de Performance (Performance Studies). Coletivo de pessoas interessadas em pedagogia radical e em desenvolver um trabalho colaborativo continuado. Ao longo dos últimos cinco anos, o baldio tem assinado a curadoria de uma série de eventos nacionais e internacionais onde teoria e prática se misturam, procurando criar condições para uma partilha horizontal de saberes que passe pela produção de experiência, tendo a construção comum de mundo como horizonte.

Ana Bigotte Vieira faz parte da equipa de programação do Teatro do Bairro Alto, sob direcção artística de Francisco Frazão, como programadora de discurso. Licenciou-se em História Moderna e Contemporânea (ISCTE), especializando-se em Cultura e Filosofia Contemporâneas (FCSH-UNL), e em Estudos de Teatro (UL). Entre 2009 e 2012 foi Visiting Scholar no Departamento de Performance Studies da New York University. A sua tese de Doutoramento recebeu uma Menção Honrosa em História Contemporânea pela Fundação Mário Soares. Integra o Instituto de História Contemporânea e Centro de Estudos de Teatro. É co-fundadora da plataforma baldio | Estudos de Performance, e dramaturgista em teatro e em dança. Foi bolseira no projecto ERC TKB / Transmedia Knowledge Base for the Performing Arts, e presentemente desenvolve com o coreógrafo João dos Santos Martins um projecto de historicização coletiva da dança em Portugal intitulado Para uma timeline a haver, participando também no grupo coordenado pela Professora Maria João Brilhante que levará a cabo uma primeira indexação do espólio do Teatro da Cornucópia. Integra a Associação BUALA. Traduziu vários autores, sobretudo de teatro e filosofia, como Luigi Pirandello, Giorgio Agamben e Maurizio Lazzarato.

+ info: Baldio – estudos de performance | UNFINISHED

Artwork © Jani Nummela