BUALA

1ª parte

HISTÓRIAS COLONIAIS E ANTI-COLONIAIS, MIGRAÇÕES E DIÁSPORAS PÓS-COLONIAIS, ATIVISMOS E FEMINISMOS DESCOLONIAIS

Ana Balona de Oliveira

Refletiremos sobre as possibilidades e os desafios inerentes a propostas artísticas e curatoriais movidas por uma política da história e da memória colonial e anti-colonial, pela atenção às migrações e diásporas pós-coloniais, pela consideração de continuidades coloniais sob a forma de racismo estrutural e sistémico e pela necessidade de uma descolonização epistémica e das instituições, pela afirmação de uma Europa negra e pelas tradições teóricas e políticas dos feminismos interseccionais, nomeadamente do Sul Global. Atentaremos nas contribuições de artistas africanos e da diáspora, particularmente das mulheres artistas, numa perspetiva comparada, i.e., relacionando as histórias coloniais e anti-coloniais e as diásporas pós-coloniais de vários contextos ‘lusófonos’, ‘anglófonos’ e ‘francófonos’ em África e na Europa, sem deixar de analisar criticamente a colonialidade destas categorias linguísticas. Também do ponto de vista teórico, abordaremos comparativamente várias tradições críticas, do pós-colonial de influência anglo-saxónica ao descolonial de origem sul-americana, sem esquecer a forma como o pensamento anti-colonial, nomeadamente aquele que foi produzido no continente africano, lhes abriu caminho, e o modo como os feminismos interseccionais colocam em evidência as limitações epistémicas e ético-políticas de todas estas linhagens críticas.

2ª parte

QUE MEMÓRIA COLETIVA ME INTERESSA?

Marta Lança

Marita Sturken, que investiga as políticas de memória num contexto global, refere as inovações historiográficas que deslocaram o interesse dos objetos para as práticas de cultura, o que ajudou a definir a memória “como um processo dinâmico que resulta de práticas de memorialização, que emergem da construção das instituições da memória”. Este alargamento da produção de memória faz-se acompanhar de crescentes debates e lutas pelos seus significados. Assim, os processos de memorialização, à partida com um forte pendor ideológico, têm desencadeado engajamento cívico e artístico. Por outro lado, Enzo Traverso alerta para a produção/consumo de massa de memória que relaciona com a necessidade identitária e a «obsessão comemorativa», na qual a memória invade o espaço público das sociedades ocidentais. Este processo de reificação do passado, transforma-o em objecto de consumo, estetizado, naturalizado e rentabilizado, pronto para a indústria do turismo e do espetáculo. Para conhecer os elementos e disputas que atuam na construção e transmissão de determinadas memórias coletivas, debatemos as forças aí em jogo: o que se escolhe memorizar, como e por quem. A memória articula-se às políticas do presente e valoriza o lado mais subjetivo, ligado à experiência. Neste laboratório mostramos exemplos de novas visualidades, revisitando modos de produzir e questionar a memória, através de arte púbica, museus, práticas artísticas, documentais e curatoriais, vestígios nas cidades, memória imaterial e gestos por fazer. A discussão a partir dos estudos da memória integra-se na urgência da descolonização nos planos cívicos e artísticos. A apresentação vai sendo pautada com exercícios imaginativos sobre o tema da memória.

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Ana Balona de Oliveira

Doutorada pelo Courtauld Institute of Art (2012), é investigadora FCT (CEEC 2017) no Instituto de História de Arte da Universidade Nova de Lisboa (IHA-FCSH-NOVA), onde co-coordena a linha de investigação ‘Transnational Perspectives on Contemporary Art: Identities and Representation’. Tem leccionado em várias instituições em Portugal e no Reino Unido. A sua investigação incide sobre narrativas coloniais, anti- e pós-coloniais, migração e globalização na arte contemporânea de países ‘lusófonos’ e outros, numa perspectiva feminista interseccional e descolonial. Publicou artigos na Nka: Journal of Contemporary African Art e na Third Text, etc., e contribuíu com ensaios e entrevistas para catálogos de exposições e outras publicações, como Recent Histories: Contemporary African Photography and Video Art, Walther Collection & Steidl, 2017, e Red Africa: Affective Communities and the Cold War, Black Dog Publishing, 2016, etc. Comissariou as exposições individuais Edson Chagas: Oikonomos, Camões-CCP, Luanda, 2019, Ângela Ferreira: Underground Cinemas & Towering Radios, Galeria Av. da Índia, Lisboa, 2016, Ângela Ferreira: Monuments in Reverse, CAAA, Guimarães, 2015, e co-comissariou a exposição colectiva Ruy Duarte de Carvalho: Uma Delicada Zona de Compromisso, Galeria Quadrum, Lisboa, 2015-2016, etc. Co-coordenou cientificamente os volumesAtlantica: Contemporary Art from Angola and its Diaspora, Hangar & CEC, 2018, e Diálogos com Ruy Duarte de Carvalho, Buala & CEC, 2019. Organiza o ciclo Thinking from the South: Comparing Post-Colonial Histories and Diasporic Identities through Artistic Practices and Spaces no Hangar, em Lisboa, e co-edita o volume Circulations: The (Un)making of Southern Africa Across and Beyond Borders(forthcoming).

Marta Lança

Lisboa (1976). Doutoranda em Estudos Artísticos (FCSH-UNL). Temas de pesquisa: debate descolonial na programação cultural, processos de memorialização. Criou as publicações independentes: V-ludo (199-01), Dá Fala (Cabo Verde 2004), Jogos Sem Fronteiras (2008 co-ed) e a plataforma BUALA. Integra a equipa Editorial do projeto “Cartografia Afro-Europeia de Cultura Língua e Artes”, do ICNova. Escreveu em várias publicações culturais. Traduziu livros de Asger Jorn e Achille Mbembe. Lecionou na Universidade Agostinho Neto, colaborou com a I Trienal de Luanda e com os Festivais de Cinema de Luanda e Dockanema, Maputo. Passa temporadas no Brasil. Programou o Roça Língua, encontro de escritores lusófonos, o ciclo Paisagens Efémeras, dedicado a Ruy Duarte de Carvalho (2015), o programa Expats para o FITEI, com Rita Natálio (2015), Vozes do Sul para o Festival do Silêncio (2017), conferências do projeto NAU!, do TEP (2018) e, com Raquel Lima, o ciclo Para nós, por nós: produção cultural africana e afrodiaspórica em debate (2018). Em cinema rodou várias séries em países africanos. Entra no filme Tempo Comum, de Susana Nobre (2018). Fez performances com o Alberto Pimenta. Integra o grupo de consultores para o Memorial às Pessoas Escravizadas (projeto da DJASS).

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artwork © Jani Nummela